domingo, 19 de novembro de 2017

E Se Eu Fosse Atropelada por um Trem?

Às vezes minha mente voa. Meu corpo está lá, mas a mente não, e eu perco qualquer tipo de percepção do mundo externo. E se em um desses momentos eu fosse atropelada por um trem? 
Eu com certeza estaria sozinha. Quando estou acompanhada, eu me guio pelos olhos atentos das pessoas que andam comigo. Tantas vezes já fui salva por amigos, namorado, pai, mãe, irmã, irmão...
Eu poderia estar indo ao supermercado. Ou mais provavelmente voltando, já com a atenção debilitada pela sensação de missão cumprida ou pelo arrependimento de ter esquecido de comprar alguma coisa importante. 
O supermercado que eu costumo ir fica em uma rua larga com três travessias. Na via do meio, a mais larga das três, passam carros, ônibus e trens nos dois sentidos. Cabe explicar que o trem ao qual me refiro, que me oferece perigo real, é o “tram”, típico metrô de superfície de cidades europeias. Carioca não está acostumado com isso. Carioca distraído tem que redobrar a atenção.
O acidente ocorreria por volta de meio-dia e meia, no intervalo entre as aulas da parte da manhã e as da tarde. Eu teria saído da aula meio-dia e combinado de almoçar com uma amiga à uma da tarde. No meio tempo, passaria no supermercado, assim poderia abastecer a dispensa e convidá-la para almoçar lá em casa. 
Na mão esquerda, eu estaria carregando as sacolas de supermercado, com cogumelos, cuscuz marroquino e muitas maçãs. Um quilo e meio de lindas maçãs. No lado direito, eu teria minha bolsa pendurada no ombro e, com a mão, estaria segurando meu celular e a pastinha do meu computador. 
Eu estaria atravessando a rua. Mais o corpo do que a mente, pois o pensamento não estaria acompanhando os movimentos do corpo. Na primeira travessia não haveria carros passando, por isso eu não esperaria o sinal verde para seguir em frente. No embalo, eu continuaria andando para atravessar a via mais larga, sem parar na placa de “Atenzione al tram”. 
Eu não escutaria o barulho do trem se aproximando. Apenas o perceberia quando ele estivesse prestes a encostar em mim – a menos de um metro de distância. Já seria tarde demais para tentar voltar à calçada. Eu gritaria alto algumas onomatopeias e viraria o corpo na mesma direção que o trem. Eu teria certeza de que morreria. Aqueles seriam meus últimos segundos de vida. Que destino. Que coisa morrer assim, atropelada por um trem durante o mestrado na Itália. Com tanta coisa ainda por acontecer... 
Eu certamente já estaria com fome, ansiosa pelo almoço. Me lembraria das minhas lindas maçãs e me angustiaria imaginando-as estilhaçadas com o choque. 
O motorista do trem, possivelmente tão desatento quanto eu, começaria a frear a máquina quando ouvisse o meu grito. Os tempos de reação pareceriam infinitos. O trem não pararia imediatamente. Enquanto a inércia impedisse o trem de parar completamente, eu seria arrastada por alguns segundos. Eu tentaria correr na mesma direção que ele, mas me desequilibraria e cairia de joelhos e mãos no chão, protegendo a cabeça. O trem ainda estaria em movimento e mais uma vez eu já me consideraria morta. 
A alma sairia do corpo para observar de fora o resto do episódio, até que o trem parasse completamente. Eu perceberia que ainda estava viva. Milhões de coisas se passariam pela minha cabeça. Minha primeira vontade seria levantar e ir para casa fazer o almoço. Fingir que nada tinha acontecido. Não furar com a minha amiga. 
Eu temeria estar sem um braço, sem uma perna ou sem parcela da audição. A possibilidade de estar com lesões permanentes invadiria meu pensamento. Justo eu, que gosto tanto de me exercitar. Eu pensaria que não deveria estar tão lesionada. Meu corpo é forte, quase blindado. 
Eu começaria a perceber a aglomeração de gente ao meu redor. Os burburinhos fofoqueiros, as respirações afobadas, a movimentação de quem quer ajudar. Escutaria algo com “ambulanzia”. Me preocuparia com a minha bolsa, as compras, o celular e o computador. Imaginaria as telas quebradas. Meus pertences furtados na confusão.
Eu finalmente me levantaria e andaria chorando até a calçada à margem da linha do trem, onde minutos antes eu poderia ter evitado tudo, caso tivesse esperado a máquina passar antes de atravessar. Eu olharia nos olhos do motorista do trem e pediria desculpas a ele.
As pessoas em volta me fariam perguntas em italiano. Eu responderia em português, e pediria por favor que ficassem calmas e parassem de falar por alguns instantes, mas ninguém entenderia português. 
Eu pegaria no chão o meu celular e guardaria no bolso do sobretudo. Mapearia com os olhos o meu computador, a minha bolsa e as minhas compras e pediria para alguém pegar para mim, ainda em português. Um homem careca recolheria tudo do chão e ficaria segurando os meus pertences.
Eu começaria a me sentir tonta. Possivelmente efeito de uma mistura de adrenalina com esforços físicos. Eu teria a sensação de estar assistindo àquilo tudo, sem realmente estar presente no momento. 
Eu me sentaria na calçada à margem da linha do trem. As pessoas em volta falariam todas ao mesmo tempo e insistiriam para que eu entrasse na ambulância. O meu desejo seria esperar a tonteira passar e voltar à vida normal. Eu não quereria ir para o hospital. Já seria quase uma da tarde, minha amiga estaria me esperando. Eu não poderia faltar à aula das duas.
Eu seria convencida a entrar na ambulância, chorando muito. A enfermeira e o motorista só falariam italiano. O homem careca entraria logo atrás de mim e deixaria do meu lado minha bolsa, meu computador e minhas compras. No meio das compras, eu perceberia uma sacola cheia de tomates que não seria minha e alertaria ao careca, que sairia da van em busca do dono.
Eu não teria escolha: seria levada imediatamente pela ambulância ao hospital. A enfermeira diria que o procedimento é obrigatório. Seria necessário fazer radiografias para ver se eu não teria sofrido nenhuma lesão.
Eu enviaria uma mensagem à minha amiga: “Me desculpa, não vou poder ir almoçar contigo. Está tudo bem. Eu estou 100%, mas fui atropelada por um trem e estão me levando de ambulância para o hospital.” 
Eu iria de ambulância até o hospital, onde tiraria as radiografias e teria certeza de não ter sofrido nenhuma lesão permanente. Eu teria apenas alguns arranhões pelo corpo, que poderiam perfeitamente ter sido consequência de um tombo qualquer. 
Na sala de espera, eu encontraria minha amiga e pediria um abraço para ter certeza de que eu estava viva. Ela me perguntaria se eu estava sentindo dores e eu diria que a felicidade de estar viva me impedia de sentir qualquer dor. Eu só conseguiria pensar que poderia ter sido muito pior.
 Nós iriamos para a casa dela. Eu tiraria a meia calça rasgada, limparia os arranhões e colocaria alguns Band-Aids. Nós comeríamos risoto e jogaríamos cartas. Faltaríamos à aula das duas. Iriamos na aula das cinco. Chegaríamos às seis. Quando acabasse a aula, ela diria que precisa ir ao supermercado, mas que passaria na minha casa mais tarde para saber do meu estado. 
Em casa, eu descobriria dentre as minhas sacolas de supermercado, uma delas cheia de uvas. Eu teria certeza de não ter comprado uvas no supermercado. Alguém teria colocado por engano nas minhas coisas no meio da confusão. Me lembraria dos tomates que eu esperaria que tivessem sido devolvidos ao seu verdadeiro dono, e sentiria muita pena da pessoa que perdeu as uvas.
Mais tarde, minha amiga chegaria na minha casa com uma enorme variedade de curativos, uma sacola com três tipos de maçãs e uma garrafa de vinho. Eu prepararia para o jantar o cuscuz marroquino com cogumelos. Nós comeríamos as uvas de sobremesa.

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