sábado, 13 de abril de 2019

Correndo na praia, meio-dia, o sol na cara. Vejo um garoto mais a frente saindo da areia e olhando para mim com um sorriso no rosto. A forma de movimentar o corpo, embora pixelada, me pareceu familiar. Era um velho amigo de infância. Já mais perto dele, abri um simpático sorriso e acenei com o braço. Embora tivéssemos estudado juntos por anos na escola e não nos víssemos desde o final do ensino médio, nunca tínhamos sido tão próximos e eu achei que não precisava parar a corrida para termos um breve papo de velhos conhecidos. Mas ele gesticulou com a mão, pedindo que eu me aproximasse. Eu pude reconhecer aquela forma inconveniente de tentar recuperar a amizade, perfeitamente coerente com outras situações que eu me lembrava dele. Eu devia ter previsto isso quando estava ainda mais longe e daria tempo de pensar em uma forma de não ser indelicada, mas não precisar parar para bater papo. Já lado a lado, eu tive que me contentar com o trote no lugar. A contragosto, me aproximei, subi no calçadão, demos dois beijinhos. “Quanto tempo...”, eu disse olhando no seu rosto. Nessa hora suspeitei que eu estivesse confundindo: não era o garoto que estudou comigo na escola; era um da colônia de férias, que eu não via desde os dez anos de idade. Continuei olhando firme nos seus olhos, tentando resgatar seu nome ou qualquer forma de identificação que minha memória alcançasse. Ele sorria muito feliz de me ver. “...nossa! Como você está diferente”, continuei. “Purrrrr quê?”, ele disse com sotaque forte, de interior paulista. Eu não conhecia ninguém do interior paulista com a cara dele. Era um total desconhecido, que provavelmente achou que a carioca correndo na praia estava super interessada no corpo sarado dele. Nota mental: preciso lembrar de correr de óculos.

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