sábado, 13 de abril de 2019

A Psicologia do Sono

Quem costuma sofrer com insônia sabe o valor que tem os olhos se fecharem involuntariamente. São momentos que não podem ser desperdiçados. Seja interrompendo a leitura de um livro, uma conversa com o namorado ou um filme no cinema. É a mente sinalizando que está relaxada, mesmo que o corpo não esteja assim tão cansado.

Nas noites de insônia o que ocorre é justamente o oposto disso. Mesmo que o corpo esteja exausto, a mente acelerada desencoraja o sono. Normalmente começa com uma pequena ansiedade. Depois o pensamento vai ganhando vida própria e o sono vira o seu grande refém. Os olhos já não têm mais paciência para se manterem fechados em vão por muito tempo. O controle está perdido pelo resto da noite.

A madrugada avança, a ansiedade vai passando para o segundo plano, e a grande vilã a essa altura passa a ser a preocupação com a insônia. Sua maior arma é o relógio. É irresistível olhar para o relógio de meia em meia hora. Cada mexida no ponteiro desespera mais a mente, que se compadece pela exaustão do corpo. É um ciclo vicioso, em que o próprio desespero com o tempo de sono perdido agrava a dificuldade de dormir. Pior ainda tendo que acordar cedo no dia seguinte. Pior ainda tendo que acordar cedo para fazer prova no dia seguinte. Pior ainda se essa prova for de vestibular.

Na véspera da segunda fase do meu vestibular pra UERJ, tive uma insônia sem vergonha. Já passava das cinco da manhã quando minha irmã chegou em casa de uma festa. Eu estava sentada na mesa da copa, como se a estivesse esperando. Ela se admirou. “Ainda acordada?”. Eu expliquei que não tinha conseguido dormir e que em menos de duas horas eu já deveria estar acordando para fazer prova. Minha irmã, que sempre teve muito problema com insônia, era a pessoa ideal para aparecer naquele momento. Ela saberia me entender, me apoiar e tomar o controle da situação. Desde que não estivesse bêbada, é claro, e não tivesse confundido o sachê de chá de camomila com o de chá preto, que é cheio de cafeína. Mas eu tomei aquele pseudo chá de camomila como se fosse um remédio tarja preta que me faria cair dura no mesmo momento. E foi isso que aconteceu. Meus olhos logo foram se fechando e eu pude descansar um pouquinho antes da prova. Tudo psicológico, porque de calmante aquele chá não tinha nada.

Fracassos


Quando tive minha primeira entrevista de emprego, resolvi me preparar com antecedência. Reli meu currículo, revisei meus sucessos pessoais, acadêmicos e profissionais, identifiquei minhas melhores qualidades e pensei nos meus objetivos. No dia, ainda voltei a revisar tudo. É importante esse aquecimento, como fazem os atletas antes de disputar pra valer. Na hora cheguei inspirada, conhecendo melhor do que nunca cada detalhe das minhas características e situações da minha vida que me deixavam realmente orgulhosa de ser quem eu era. Não havia nervosismo no peito. Com tantos méritos que eu havia descoberto em mim, abriu-se espaço para o surgimento de uma nova qualidade: a auto-confiança.

Só que logo de cara a entrevista não foi como eu esperava. Quando o rapaz de óculos e barba, que se apresentou como dono da empresa, me perguntou sobre meus fracassos, eu vi evaporar meu tão bem ensaiado repertório de conquistas, sucessos, glórias quase milagrosas e elogios admirados a mim mesma. Nada do que eu havia praticado me serviria naquele momento, e um vazio tremendo tomou conta da minha personalidade.

 Por que alguém para me contratar iria querer saber dos meus fracassos? Nem eu mesma quero saber. A gente quando fracassa se encarrega de varrer cada detalhe dos acontecimentos para dentro de um buraco bem fundo, e enterrar tudo. Ou cobrir com cimento, para garantir que essas memórias não vão ressurgir. E foi nessa hora que eu percebi como tenho medo dos meus próprios erros, enquanto deveria até dedicar mais tempo a analisá-los, como forma de aprendizado.

Na vida é importante ter fracassos e saber lidar com eles, se adaptar a eles, contorná-los, e até mesmo passar a enxergá-los como elementos fundamentais para a construção dos sucessos. Acho que era essa conclusão que meu ex futuro chefe queria ouvir. Em vez disso, eu gelei, emudeci. Não consegui a vaga, que deve ter ido para alguém com fracassos mais bem-sucedidos. Mas essa história eu não vou enterrar. Na minha próxima entrevista, já tenho um fracasso muito bem-sucedido para contar.
Desde pequenos nos acostumamos a fingir que entendemos coisas que na verdade nos parecem inimagináveis. Quando a gente não entende, aceita, decora, não adianta questionar muito. Deixamos para voltar a analisar aquilo quando ficarmos mais velhos, pra ver se fica naturalmente mais claro. “Quando você crescer vai ficar mais fácil entender isso”, nos diziam os adultos. Algumas coisas a gente acaba entendendo mesmo, mas outras acabamos não esclarecendo nunca.

Na época da escola eu tirava dez em tudo. Dez em geografia decorando os impactos de placas tectônicas. Dez em história sem conseguir visualizar o que de fato seria uma assembleia constituinte. Dez em biologia por simplesmente aceitar que os anelídeos fazem respiração cutânea indireta. E dez em português, classificando as placas tectônicas, as assembleias constituintes e os anelídeos como substantivos concretos, mesmo que para mim eles estivessem no limite do que há de mais abstrato no mundo.

Depois que a gente é adulto fica ainda mais difícil assumir nossas ignorâncias. Tem muitas coisas que a gente acha que já deveria saber e acaba tendo vergonha de perguntar. Me lembro da minha primeira aula na faculdade, que me fez voltar pra casa tendo certeza de que eu não tinha base nenhuma pra acompanhar o que estava por vir. Mais tarde descobri que todos os meus colegas tiveram a mesma sensação.

Tirando a diferença entre esquerda e direita, olhar as horas em relógio de ponteiro, e, para as gerações mais novas, usar as tecnologias da Internet, ninguém é obrigado a nascer sabendo nada. Não tem por que transformarmos o desconhecimento em tabu.

Certa vez, quando a rede social da moda ainda era o Orkut, um garoto da escola faleceu em um acidente e todos os outros colegas colocaram a palavra “luto” em letras maiúsculas ao lado do próprio nome no perfil do Orkut. Já estávamos no último ano do ensino médio e eu não poderia imaginar que, às vésperas do vestibular, eu tivesse um amigo que me perguntaria o significado da palavra luto. “Sorte a dele”, pensei. Não era uma palavra que eu me orgulhasse de saber o significado.
Correndo na praia, meio-dia, o sol na cara. Vejo um garoto mais a frente saindo da areia e olhando para mim com um sorriso no rosto. A forma de movimentar o corpo, embora pixelada, me pareceu familiar. Era um velho amigo de infância. Já mais perto dele, abri um simpático sorriso e acenei com o braço. Embora tivéssemos estudado juntos por anos na escola e não nos víssemos desde o final do ensino médio, nunca tínhamos sido tão próximos e eu achei que não precisava parar a corrida para termos um breve papo de velhos conhecidos. Mas ele gesticulou com a mão, pedindo que eu me aproximasse. Eu pude reconhecer aquela forma inconveniente de tentar recuperar a amizade, perfeitamente coerente com outras situações que eu me lembrava dele. Eu devia ter previsto isso quando estava ainda mais longe e daria tempo de pensar em uma forma de não ser indelicada, mas não precisar parar para bater papo. Já lado a lado, eu tive que me contentar com o trote no lugar. A contragosto, me aproximei, subi no calçadão, demos dois beijinhos. “Quanto tempo...”, eu disse olhando no seu rosto. Nessa hora suspeitei que eu estivesse confundindo: não era o garoto que estudou comigo na escola; era um da colônia de férias, que eu não via desde os dez anos de idade. Continuei olhando firme nos seus olhos, tentando resgatar seu nome ou qualquer forma de identificação que minha memória alcançasse. Ele sorria muito feliz de me ver. “...nossa! Como você está diferente”, continuei. “Purrrrr quê?”, ele disse com sotaque forte, de interior paulista. Eu não conhecia ninguém do interior paulista com a cara dele. Era um total desconhecido, que provavelmente achou que a carioca correndo na praia estava super interessada no corpo sarado dele. Nota mental: preciso lembrar de correr de óculos.