Desde pequenos nos acostumamos a fingir
que entendemos coisas que na verdade nos parecem inimagináveis. Quando a gente
não entende, aceita, decora, não adianta questionar muito. Deixamos para voltar
a analisar aquilo quando ficarmos mais velhos, pra ver se fica naturalmente
mais claro. “Quando você crescer vai ficar mais fácil entender isso”, nos
diziam os adultos. Algumas coisas a gente acaba entendendo mesmo, mas outras
acabamos não esclarecendo nunca.
Na época da escola eu tirava dez em tudo. Dez em geografia decorando os impactos de placas tectônicas. Dez em história sem conseguir visualizar o que de fato seria uma assembleia constituinte. Dez em biologia por simplesmente aceitar que os anelídeos fazem respiração cutânea indireta. E dez em português, classificando as placas tectônicas, as assembleias constituintes e os anelídeos como substantivos concretos, mesmo que para mim eles estivessem no limite do que há de mais abstrato no mundo.
Depois que a gente é adulto fica ainda mais difícil assumir nossas ignorâncias. Tem muitas coisas que a gente acha que já deveria saber e acaba tendo vergonha de perguntar. Me lembro da minha primeira aula na faculdade, que me fez voltar pra casa tendo certeza de que eu não tinha base nenhuma pra acompanhar o que estava por vir. Mais tarde descobri que todos os meus colegas tiveram a mesma sensação.
Tirando a diferença entre esquerda e direita, olhar as horas em relógio de ponteiro, e, para as gerações mais novas, usar as tecnologias da Internet, ninguém é obrigado a nascer sabendo nada. Não tem por que transformarmos o desconhecimento em tabu.
Certa vez, quando a rede social da moda ainda era o Orkut, um garoto da escola faleceu em um acidente e todos os outros colegas colocaram a palavra “luto” em letras maiúsculas ao lado do próprio nome no perfil do Orkut. Já estávamos no último ano do ensino médio e eu não poderia imaginar que, às vésperas do vestibular, eu tivesse um amigo que me perguntaria o significado da palavra luto. “Sorte a dele”, pensei. Não era uma palavra que eu me orgulhasse de saber o significado.
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